domingo, 17 de novembro de 2013

Novo conto: A casa

                               A casa



   Juliana, Pitia e Cristina eram três grandes amigas de infância que o tempo e o acaso acabaram separando. Depois de 10 anos sem se ver, acabaram por se encontrar em um restaurante local. A alegria de se verem foi tanta que logo marcaram de sair juntas, decidiram ir passar uma noite na casa onde Cristina havia crescido e onde elas passaram os melhores momentos da vida. A casa estava abandonada a muitos anos, já que Cristina e seus pais haviam se mudado para outra cidade, elas mal sabiam o que lhe esperavam.
   Pela manhã elas se encontraram em frente a casa com suas barracas e colchões , entraram e viram o quanto a casa era escura e suja. O tempo em que esteve abandonado lhe fez muito mal, as paredes estavam cobertas de grandes placas de mofo, o chão possui uma enorme crosta de poeira, as teias de aranha cobriam tudo. Subiram as escadas até o quarto de Cristina e se surpreenderam em ver que ali tudo estava em perfeito estado. O quarto permanecia arrumado, limpo e bem pintado.
   - Não entendo. – Afirmou Cris – Como pode estar arrumado? Já tem muitos anos que ninguem vem aqui.
   - Sua mãe deve ter dado um pulinho rápido aqui e dado uma limpada no seu quarto para a gente dormir.
   - É, pode ser Pitia, mas...
   - Não pira Cris, deve ter sido mesmo sua mãe.
   - Sim, vamos montar as coisas e darmos uma olhada no jardim.
   O jardim possuía lindas rosas e uma fonte que jorrava agua, uma agua apodrecida e escura. Elas ficaram ali um bom tempo relembrando suas historias que mal perceberam que já anoitecia. Um barulho ensurdecedor vindo de dentro da casa lhes assustou.
   - Pode ser um gato, ou algum mendigo que costuma dormir aqui. – Tranquilizou Cristina. – Vamos lá pedir para ele ir embora.
   A casa parecia vazia, não encontraram nem gato, nem mendigo. Então ligaram suas velas e deitaram no colchão que colocaram no quarto, o sono e o cansaço embalaram a noite, todas logo estavam desfrutando de um bom sono.
   Cristina por algum motivo acordou assustada, levantou-se e desceu as escadas até a porta de entrada da casa, saiu e foi até o jardim, ali ela deu de cara com uma linda jovem loira.
   - O que faz aqui? – Perguntou Cris
   - Vim te ver.
   - Você me conhece?
   - É um prazer vê-la. Eu sabia sobre você, mas nunca te vi pessoalmente.
   - Não te conheço.
   - Eu sei  - a loira riu – Adoro seu quarto, lá muitas vezes é o meu refugio contra a maldade daqui.
   - Você mora aqui?
   - A muito tempo, acho que nasci aqui.
   - Desculpe invadir seu espaço, só que essa casa é da minha família, você tem quase a minha idade, então é impossível você ter nascido aqui.
   A moça riu e saiu andando, passou pela Kombi de Pitia que estava estacionada na frente da casa e foi embora. Cristina ficou ali perplexa e confusa, achou aquilo muito estranho e surreal. “Talvez eu esteja em um sonho.”Pensou.
   A noite estava muito fria que fez com que Cristina voltasse correndo pra dentro de casa. Ela queria voltar para seu colchão, dormir e pela manhã procurar a tal moça loira. Entrou e foi até a cozinha, lá ela viu uma garotinha chorando em baixo da antiga mesa de jantar.
   - Me ajude Cristina.
   - Quem é você?
   - Se esconda, se esconda da maldade daqui.
   - O que?
   A garota virou-se e encarou-a. Algo naquele rostinho infantil lhe parecia familiar.
   - Corra – Gritou a garota.
   Assustada Cristina subiu as escadas até o quarto onde suas amigas dormiam tranquilamente e trancou a porta.
   - O que esta fazendo? – Questionou Juliana sonolenta.
   - Tem algo muito estranho aqui.
   - Como assim?
   Instantaneamente algo começou a bater na porta do quarto, as batidas ficavam mais fortes a cada minuto.
   - Quem pode ser?
   - Eu não sei Juli.
   - O que esta acontecendo?
   - Pitia tem algo batendo na porta – Explicou Juliana assustada.
   - Deve ser o vento.
   - O vento agora bate em portas é?
   - Vocês são muito medrosas. -  Pitia levantou-se e foi até a porta.
   - Não abra – Gritaram Juliana e Cristina, mas Pitia ignorou.
   Do lado de fora não havia ninguém, apenas a escuridão.
   - Não há nada do lado de fora.
   Um vulto passou atrás de Pitia fazendo-as gritar de medo.
   - Precisamos sair daqui.  – Informou Pitia
   As três saíram correndo do quarto e desceram as escadas, vozes de crianças rindo ecoaram pela casa, vultos escuros começaram a rodeia-las, desesperadas elas correram até a Kombi.
   - Vamos embora daqui.
   Pitia ligou o carro, mas Juliana enterviu.
   - Não posso ir, minhas coisas estão lá dentro.
   - Amanhã cedo nós pegamos.
   - Não dar Cristina, preciso das minhas coisas. – Juliana desceu da Kombi – Vai levar só um minuto.
   - Eu vou com você.  – Informou Pitia saindo da Kombi.
   - Não me deixem aqui meninas.
   - Não vai demorar.
   As garotas adentraram a casa escura e Cristina ficou na Kombi olhando pela janela do banco do motorista. A moça loira e a garotinha apareceram do lado da janela e acenaram para ela, e Cristina pode perceber a semelhança entre as duas.
   - É sua filha?
   - Não – a moça loira se aproximou cada vez mais perto do carro – Ela sou eu mais nova.
   - Mas como?
   - Você não me conhece e nunca ouviu falar de mim, mas eu sei quem você é. Ouvi muito de você, principalmente do sótão da sua casa onde mamãe e papai me escondiam. Te ouvi crescer.
   Cristina parecia não entender nada
   - A vida é muito difícil para a filha da empregada, principalmente quando você é filha bastarda do dono da casa. Sabe Cris, muitas vezes é preciso varrer o erro pra debaixo do tapete. E foi isso que seu pai fez comigo. Me condenou a crescer e morrer num porão. Me condenou a apodrecer nessa casa para todo o sempre.
   - Saia daqui – Gritou Cristina assustada.
   - Você já me viu criança, jovem e agora veja como estou apodrecida. – Um bafo quente soprou no ombro de Cris – Olhe ao seu lado e me vera.
   O grito de Cristina ecoou por toda a rua, seu corpo, o de Pitia e de Juliana e a Kombi nunca foram encontrados.

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